O Uruguai se destaca na América Latina como um modelo de energia renovável, e agora está se preparando para uma nova fase em sua revolução energética.
Após estabelecer uma matriz elétrica predominantemente limpa, composta por 46% de hidrelétricas, 27% de energia eólica e 19% de biocombustíveis, o país agora direciona suas atenções para a energia solar, que atualmente representa apenas 2% de sua geração elétrica.
A Meta Ambiciosa do Governo Uruguaio
O governo do Uruguai anunciou um plano audacioso para expandir a capacidade de energia solar em 100 megawatts (MW) até 2026, com a meta de alcançar 1.100 MW até 2040.
Essa iniciativa visa não apenas atender ao crescente consumo de eletricidade, mas também garantir a descarbonização total do país até 2050. Arianna Spinelli, secretária de Energia do Ministério de Indústria, Energia e Mineração, afirma que os estudos realizados indicam que a energia solar e a eólica são as fontes mais adequadas para o futuro energético do Uruguai.
O Potencial da Energia Solar e Eólica
Um relatório da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) já havia destacado em 2019 que o potencial geográfico do Uruguai torna a energia solar e a eólica altamente complementares.
A energia solar gera eletricidade durante o dia, enquanto os ventos propiciam a geração noturna, resultando em um sistema energético mais resiliente e estável.
Atualmente, o Uruguai possui uma capacidade instalada de 300 MW em energia solar e 1.500 MW em energia eólica.
No entanto, o governo está determinado a acelerar esse crescimento.
Dois novos projetos estão programados para adicionar 100 MW à rede nacional até 2026: a usina solar Punta del Tigre, no sul, com 25 MW e previsão de operação em julho de 2026, e o parque solar de Melo, no leste, com 75 MW previstos para 2028.
Investimentos e Acessibilidade
De acordo com Darío Castiglioni, diretor da Administração Nacional de Usinas e Transmissões Elétricas (UTE), o investimento total para esses projetos será de cerca de US$ 91 milhões.
Ele destaca que os custos da energia solar estão se tornando cada vez mais competitivos. “O preço da eletricidade gerada por painéis solares é agora mais acessível e deve continuar a cair à medida que a tecnologia avança”, afirma Castiglioni.
Edgardo Ortuño, ministro do Meio Ambiente, ressalta que a expansão das fontes renováveis é uma parte crucial do desenvolvimento sustentável do Uruguai.
O país está comprometido em alcançar a neutralidade de carbono até 2050, ancorando-se em três pilares: eficiência energética, eletromobilidade e eletrificação da demanda.
O Papel das Energias Renováveis na Economia
A expansão da energia renovável também é impulsionada por razões econômicas.
Ramón Méndez, diretor-executivo da Ivy Foundation, afirma que as energias renováveis não são apenas uma questão ambiental, mas também uma solução econômica viável. “Essas fontes de energia são as mais baratas e não estão sujeitas às flutuações dos preços dos combustíveis fósseis”, explica Méndez.
O projeto Punta del Tigre foi o primeiro a atrair investimentos internacionais, resultando de uma parceria entre a empresa espanhola Prodiel Energy e a uruguaia Teyma.
O sucesso dessa colaboração abriu portas para novos investimentos estrangeiros, como o projeto em Melo, que contará com 138 mil painéis solares.
A Influência Chinesa no Mercado Solar
A presença chinesa no mercado solar uruguaio é significativa, principalmente devido a questões de custos.
Rodrigo Alonso, pesquisador da Universidade da República de Montevidéu, observa que quase todos os equipamentos instalados no Uruguai vêm da China, que domina o mercado solar global.
Além do fornecimento de painéis, empresas chinesas também estão envolvidas na construção de sistemas de transmissão no país.
Méndez acrescenta que a China não apenas oferece tecnologia acessível, mas também financiamento vantajoso, o que contribui para reduzir o custo final da eletricidade. “Esses acordos têm sido bem aceitos, pois as operações permanecem sob controle do Estado uruguaio, garantindo benefícios diretos para a economia local”, ressalta.
Desafios e Oportunidades
Embora a expansão da energia solar apresente muitos benefícios, também suscita preocupações sobre os impactos ambientais e o uso do solo.
Os parques solares requerem grandes áreas de instalação, o que pode afetar ecossistemas locais.
Entretanto, Spinelli observa que as usinas solares ocupam apenas 0,0033% do território nacional, o que é relativamente insignificante para um país com baixa densidade populacional.
A aceitação social dos projetos solares tem sido positiva, com a população reconhecendo que essas iniciativas geram empregos e segurança energética.
Contudo, o Uruguai deve se preparar para um aumento significativo na demanda de eletricidade nos próximos anos, impulsionado por fatores como a eletromobilidade e a digitalização.
O Futuro da Energia Solar no Uruguai
O Plano de Expansão da Geração de Eletricidade 2024-2043, publicado pelo governo, prevê a adição de até 2.420 MW em energia eólica e 1.375 MW em energia solar nos próximos 20 anos.
Spinelli assegura que a infraestrutura elétrica do Uruguai está preparada para suportar essa nova capacidade, com várias obras de transmissão já em andamento.
Com opções de financiamento interno limitadas, o Uruguai está buscando apoio de organismos internacionais, como o Fundo Verde para o Clima e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Segundo Spinelli, o governo está atento às oportunidades de financiamento climático e já possui projetos de cooperação em desenvolvimento.
Méndez acredita que o país pode conseguir empréstimos e participações a juros baixos, o que pode facilitar a implementação de projetos sustentáveis.
Além disso, o Uruguai está trabalhando na integração energética regional, visando compartilhar sua energia limpa com os países vizinhos.
Considerações Finais
O Uruguai está em um caminho promissor para expandir sua capacidade de energia solar, integrando-a a uma matriz energética já diversificada e limpa.
As iniciativas em andamento não apenas visam atender à crescente demanda por eletricidade, mas também contribuem para a sustentabilidade e a neutralidade de carbono até 2050. Com investimentos estratégicos e parcerias internacionais, o país se posiciona como um líder na transição energética na América Latina.
